Encontro da Família Ervateira reforça tradição e inovação na Fenachim 40 anos

A Arena de Inovação da 18ª Fenachim 40 anos foi palco de um dos encontros mais simbólicos da programação voltada ao setor ervateiro. Realizado no Parque do Chimarrão, em Venâncio Aires, o 1º Encontro da Família Ervateira reuniu produtores, pesquisadores, indústrias, entidades e representantes dos polos ervateiros do Rio Grande do Sul em um momento de troca, valorização cultural e construção de perspectivas para o futuro da erva-mate.

Coordenado pelo Instituto Brasileiro da Erva-Mate – IBRAMATE, a iniciativa nasceu com o propósito de reunir os diversos agentes que sustentam a cadeia produtiva do mate — do viveirista ao consumidor, do produtor ao turismo cultural. “Por isso, escolhemos o nome ‘Encontro das Famílias Ervateiras’, pois reunimos todos aqueles que fazem parte da cadeia e se dedicam ao desenvolvimento e ao sucesso do setor”, destacou Alberto Tomelero, presidente da entidade.

Integrando a programação oficial da Fenachim 40 anos, o Encontro da Família Ervateira reafirmou o protagonismo da erva-mate na cultura gaúcha e evidenciou que o futuro do setor passa pela união entre conhecimento, pertencimento e inovação. “A erva-mate que a gente vive… também é a que a gente estuda, valoriza e projeta para o futuro.” A frase compartilhada pela Fenachim sintetizou o espírito do evento, que aproximou conhecimento técnico, identidade territorial e pertencimento cultural em uma programação marcada pela diversidade de temas e olhares sobre o universo ervateiro.

Em meio a cuias compartilhadas, debates qualificados e encontros entre diferentes gerações, o evento deixou evidente que a força da cultura ervateira segue viva e em constante transformação. Mais do que um evento técnico, o encontro consolidou-se como um espaço de fortalecimento coletivo, reafirmando a erva-mate como patrimônio econômico, ambiental e cultural do Rio Grande do Sul.

Memória da paisagem e identidade cultural

Abrindo a programação, Ilvandro Barreto de Melo, coordenador da Câmara Setorial da Erva-mate no Rio Grande do Sul e técnico da Emater/RS-Ascar conduziu a palestra “Memória da Paisagem: A Erva-Mate como Testemunha do Tempo”, propondo uma reflexão sobre a relação histórica e cultural da erva-mate com o território e a paisagem gaúcha.

Ao abordar a erva-mate como elemento que acompanha gerações e transformações do território, o painel destacou seu papel como símbolo de identidade, memória e permanência cultural, reforçando a conexão entre tradição, ocupação do território e preservação das referências culturais ligadas ao universo ervateiro.

Ilvandro Barreto de Melo, coordenador da Câmara Setorial da Erva-mate no RS

A química da erva-mate

A professora e pesquisadora Rosângela Assis Jacques, da UFRGS, apresentou uma abordagem voltada aos componentes químicos da erva-mate e sua relação com qualidade, sabor e propriedades funcionais da bebida.

A palestra evidenciou como compostos presentes na erva influenciam características sensoriais do chimarrão, além de reforçar o potencial científico e nutricional da cultura ervateira. Ao aproximar pesquisa acadêmica e cadeia produtiva, o painel destacou a importância da ciência na valorização da erva-mate e na ampliação do reconhecimento do produto sob diferentes perspectivas.

Rosângela Assis Jacques, professora e pesquisadora da UFRGS

Da ciência à cuia: identidade sensorial da erva-mate

Ariana Maia, coordenadora técnica e de pesquisa da futura IG da Erva-Mate do Alto Taquari, abordou análise sensorial, fundamentos científicos e aplicações práticas relacionadas à valorização da identidade regional da erva-mate e destacou como as características sensoriais carregam a expressão do território, conectando produto, cultura e origem: “Cada aroma, cada sabor, carrega a identidade de uma região que está construindo seu reconhecimento”.

O painel reforçou ainda que a união entre conhecimento técnico e tradição pode ampliar o valor cultural e econômico da erva-mate, fortalecendo o processo de construção da futura Indicação Geográfica do Alto Taquari.

Ariana Maia, coordenadora técnica e de pesquisa da futura IG da Erva-Mate do Alto Taquari e CEO da Inovamate

Erva-mate e soluções climáticas

Pesquisador do Departamento de Diagnóstico e Pesquisa Agropecuária DDPA/SEAPI, Jackson Brilhante trouxe ao encontro uma reflexão sobre o papel da erva-mate diante dos desafios climáticos enfrentados pelo Rio Grande do Sul. Com foco no Plano ABC+RS, a palestra destacou sistemas de produção sustentáveis capazes de unir produtividade, conservação ambiental e maior resiliência frente aos eventos extremos.

Ao abordar práticas integradas e sistemas produtivos associados à conservação ambiental, o painel evidenciou como a erva-mate pode atuar como uma solução climática baseada na natureza, contribuindo para o equilíbrio ambiental e para a sustentabilidade da cadeia produtiva.

A apresentação reforçou ainda a importância da integração entre tradição produtiva, pesquisa e inovação na construção de um setor mais resiliente e preparado para os desafios do futuro.

Jackson Brilhante Engenheiro Florestal e pesquisador do DDPA, da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Irrigação (SEAPI)

Mercado, inovação e novas perspectivas

Também integrou a programação a participação do consultor de mercado, Arturo Muttoni, que trouxe uma reflexão sobre perspectivas e transformações do setor ervateiro, conectando tradição, mercado e inovação.

Em sua fala, destacou a importância de pensar a erva-mate para além do consumo tradicional, ampliando possibilidades de valorização cultural, posicionamento de mercado e fortalecimento da cadeia produtiva. O painel reforçou a necessidade de integração entre produtores, indústria, pesquisa e novas estratégias de desenvolvimento para ampliar o reconhecimento da erva-mate dentro e fora do Brasil.

Arturo Muttoni – Exteriorize Consultoria em Comércio Exterior

Gastronomia de Erva-Mate: da cuia à mesa

A gastronomia também assumiu o seu protagonismo ao demonstrar a versatilidade da erva-mate à mesa. Durante o evento, o público poderá conferir uma exposição de produtos inovadores, com destaque para o coquetel preparado pela professora e tecnóloga em Gastronomia da Unisc, Luciana Oracy Rodrigues Cassaboni. A experiência sensorial inclui desde pratos salgados, como a torta quente de frango em pão de erva-mate, até sobremesas sofisticadas que harmonizam o “ouro verde” com sabores cítricos, em mousses de laranja, merengues e até tilápia caramelizada.

Já a confeiteira Niege Oliveira, participou com bolo de pinhão, brigadeiro de erva-mate e a já famosa Pipomate – pipoca de leite Ninho com erva-mate, vencedora do 4ª Concurso Culinário de Venâncio Aires, realizado na Fenachim 2025. Muito além da cuia, a erva-mate vem gradualmente conquistando novos espaços na culinária contemporânea.

Gastronomia de Erva-Mate

Conexão ancestral e espiritualidade da erva-mate

Entre os momentos mais simbólicos do Encontro da Família Ervateira esteve a realização de uma ação de pajelança, conduzida como m momento de conexão com as origens e com os saberes ancestrais ligados à erva-mate. A atividade trouxe uma reflexão sobre a dimensão espiritual, cultural e histórica do mate muito antes de sua consolidação como símbolo da tradição gaúcha.

O momento reforçou o reconhecimento da erva-mate como elemento profundamente ligado aos povos originários e às relações de cuidado, conexão e pertencimento construídas ao longo do tempo. Em meio à programação técnica e científica, a ação destacou que pensar o futuro da erva-mate também significa respeitar suas raízes, sua memória e os conhecimentos tradicionais que atravessam gerações.

Ritual de Pajelança celebra a ancestralidade Guarani da nossa Erva-Mate

Um encontro de valorização e pertencimento

Além dos painéis e debates, o encontro também contou com homenagens a personalidades que contribuíram para o desenvolvimento da cadeia ervateira, como José Roberto de Oliveira, pesquisador e escritor dedicado à formação histórica e cultural das Missões Jesuítico-Guarani e das raízes latino-americanas; Theodoro Mendes da Fonseca – o Seu Dorinho (in memoriam), agricultor do município de Machadinho, responsável pela identificação e cultivo da variedade “Cambona 4”, impulsionando a economia regional e contribuindo para a conquista da Indicação Geográfica da região; e Pedro José Schwengber – o Pedrão (in memoriam), ativista cultural gaúcho e maior embaixador do chimarrão no mundo, promovendo a cultura do mate e transformando o ato de cevar em ferramenta de turismo e integração cultural, entre outros  profissionais e pesquisadores que atuam no estudo, preservação e inovação do setor.

Estiveram representados no encontro, os polos ervateiros Alto Taquari (sede em Ilópolis), Região dos Vales (sede em Venâncio Aires), Missões/Celeiro (sede em Palmeira das Missões), Alto Uruguai (sede em Erechim) e Nordeste Gaúcho (sede em Machadinho). 

José Roberto de Oliveira recebe a sua homenagem de Alberto Tomelero, presidente do Ibramate
Pedro José Schwengber – o Pedrão (in memoriam) é representado por seus parceiros da Escola do Chimarrão
À direita de Alberto Tomelero, o prefeito de Venâncio Aires, Jarbas Daniel da Rosa, a Corte Fenachim e a Princesa Nacional da Erva-Mate da Argentina
Os profissionais e pesquisadores Ilvandro, Jackson, Ariana, Roângela e Clovis Roman, da APPEMATE, recebem a Homenagem

Créditos de imagem: (capa) Fenachim, Guilherme Figueiredo/Traço D; (cobertura) Ibramate, Ismael Rosset